LER E PRODUZIR OBRAS LITERÁRIAS : prazeres vitais para o mundo humano

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Reflexão acerca da leitura e produção de obras literárias a partir da compreensão de que essas atividades materializam prazeres vitais para o mundo humano.

Parte da exposição da obra literária enquanto arte e forma de conhecimento. Analisa a criatividade na produção da arte e finaliza abordando o específico da criação. Palavras-chave: Obras literárias. Arte. Conhecimento. Criatividade.

LER E PRODUZIR OBRAS LITERÁRIAS : prazeres vitais para o mundo humano Lavra na terra o sulco da vida lavra idéias lava a “culpa” e o “pecado do mundo” limpa com idéias revolve o mundo do inominável com tuas idéias ! Dilercy Adler 1 Obra literária enquanto Arte A Ciência, a Filosofia e a Arte constituem três formas culturais de conhecimento (LYRA, 1993, p.24). Diferentemente do filósofo e do cientista, o artista não se prende a verdade factual. Isso significa dizer que o trabalho do artista não objetiva preencher as lacunas do saber, investigando o ainda ignorado, (como na ciência) ou demonstrar teses acerca do homem no mundo e do mundo do homem (como na filosofia), mas o de explorar criativamente todas as possibilidades expressivas do seu obje¬to. Para tal, é permitido ao artista lidar e manusear, tanto com a ignorância, como com a própria inverdade, a exemplo das poesias que seguem: DIFÍCIL VERDADE Haverá talvez verdades que fiquem além da linguagem o que nos faz seres solitários! faço esforço sobre-humano para dizer o que sinto... ...e nem sempre consigo! faço esforço incrível para viver o que penso... ...nem sempre é possível! faço esforço tamanho para tornar-me clara e facilmente interpretada ...mas muitas vezes me flagro diferente na percepção do outro! são essas verdades além da palavra do gesto da expressão essas verdades não ditas que nos condenam a essa insólita solidão! ADLER, 1991, p.103) (coloca a dúvida e os limites humanos) INSONDAVELMENTE SENDO Conhecer-me como é possível? se eu mesma me debato e desabo toda se sou arrebatada e me arrebento inteira entre dúvidas desatinos e "certezas" questionáveis que me amordaçam me violentam me dividem! conhecer-te mais difícil ainda ... eis a insondabilidade do ser humano! (ADLER, 1991, p. 15) (Coloca os limites acerca do próprio conhecimento, do conhecimento do outro e questiona as certezas). Assim, o campo da arte é o imaginário. Dai porque nes¬se sentido pode ser afirmado que é mais vasto do que o da Filosofia e mais ainda que o da Ciência. Com base nessa premissa talvez não seja pre¬tensioso colocar que a arte termine se firmando como uma forma privilegiada do conhecimento. “Dentre as artes pode-se dizer que a Literatura apresenta maior capacidade de abrangência. Isso por¬que nenhuma outra linguagem artística apresenta o alcance da palavra” (LYRA, 1993, pp. 35-50). No que diz respeito à palavra do poeta inicia-se a argumentação através da seguinte afirmação psicanalítica: Mélanie Klein diz que "o que me impede de ver é a inveja, o mau olhar [...] o invejoso não vê com bons olhos, pois a inveja ataca-lhe a visão [...] o contrário da inveja é a gratidão [...] o invejoso, ao contrário do poeta, sob a ação da pulsão de morte, amaldiçoa, vê com maus olhos e diz más palavras" (REZENDE, 1993, pp. 110-124). O papel do poeta, segundo a mitologia grega, comentada por MarceI Détienne, em seu livro. "Os mestres da verdade na Grécia antiga", era exatamente o de fazer o elogion - o elogio. Tomado ao pé da letra o elogio significa a boa palavra, a qual consiste em dizer bem ou bem - dizer e no latim benedicere significa abençoar (REZENDE, 1993, p. 111). O poema FALA DE POETA expressa um pouco essa questão: A palavra do homem habitat-corpo- transita na boca a boca que beija o beijo que trai a palavra do homem habitat -corpo- ferinamente fere a mão que se estende e não se fecha jamais!... ...fala poeta por ti e por nós a palavra de amor por sob os lençóis a palavra benigna que não fere jamais a palavra de vida que lava a ferida tantas chagas e dor fala poeta palavras palavras em rimas de amor! (ADLER,1997, p. 19). Fica claro que o poeta olha o mundo muito mais com o espírito e comunica um pouco do seu espírito para os demais. Desse modo, a linguagem poética transmutada é advinda do olhar do poeta que transcende à materialidade observável a exemplo de: RITUAL colho orvalho - lágrimas do cosmo - na noite enlutada engulo luares - dos nostálgicos amantes¬ – bucolicamente solitários rumino compulsivamente todas as saudades que me fazem a tua ausência digiro tácita solidão num ritual sem trégua à tua espera! (ADLER, 1997, p.20) (no sentido factual não se pode engolir luares, ruminar saudades ou digerir solidão) DESEJO Quero extrair mais um poema das entranhas... estranha arte de parir palavras! (ADLER, 2000, p.20) Assim, o olhar do poeta torna-se instrumento de tradução do mundo, e nessa tradução reside tanto a minimização das dores e da crueza da realidade, como uma infinidade de prazeres vitais para o mundo humano. 2 A criatividade na produção da arte A criatividade, como qualquer outro traço ou característica humana, necessita de condições adequadas para que possa se desenvolver. Algumas destas condições se relacionam com o espírito da época, com o clima psicológico ou social que predomina em uma determinada sociedade ou em determinado povo. Estas condições, mais ou menos favoráveis, estão também relacionadas aos valores dominantes na família, aos traços de personalidade e características reforçadas e cultivadas. Desse modo, tantos os fatores intrapessoais, interpessoais, individuais e sociais, têm um impacto significativo na produção criativa do indivíduo e da sociedade. No tocante à escola é muito importante que os objetivos propostos, as metodologias de ensino adotadas, os procedimentos em geral que aglutinam normas, valores, estejam dirigidos para a formação de leitores e autores. É a interação entre múltiplos fatores que vai possibilitar a emergência e o reconhecimento da criação e de um número maior ou menor de produtos criativos. Em termos de características de um contexto social propício à criatividade salienta-se a extensão em que as contribuições criativas de seu povo são bem aceitas e valorizadas, bem como a existência de condições que estimulem a inovação, a exploração de idéias e a criação de novos produtos. A importância do reconhecimento social também é de fundamental importância. Por isso é necessário que aqueles que convivam com o indivíduo valorizem a sua criatividade, o ambiente deve oferecer o apoio necessário e aceitar o trabalho criativo quando apresentado. Sabe-se também que o desenvolvimento e a expressão da criatividade não dependem somente dos esforços do próprio indivíduo, mas ainda do contexto social em que se acha inserido. No tocante a este último, esse desenvolvimento se dá quando os seus cidadãos têm liberdade e oportunidade para estudar e preparar-se profissionalmente, explorar e questionar, expressar-se, serem eles mesmos. Outras condições de um ambiente que facilitam o comportamento criativo: redução de fatores que produzem frustração, redução de experiências e situações competitivas que implicam ganhos ou perdas,encorajamento do pensamento divergente, eliminação de ameaças ambientais, aceitação de fantasias, minimizações de coerções, ajuda à pessoa em sua compreensão de si e de sua divergência em relação às normas. 3 Sobre o específico da criação Para que haja a criação, o criador necessita da sua capacidade de perceber o objeto...as pessoas...as coisas humanas...o mundo. Nessa perspectiva o olhar é entendido no sentido de ir ao encontro do mundo, de trazê-lo para dentro de si, devolvendo-o para o coletivo reinterpretado e esse agir implica a disposição de abrir-se ao mundo. Essa é talvez a primeira condição para a criação. É ainda fundamental dispor de olhar sempre atento aos pequenos detalhes, percepção que implica sensibilidade e capacidade de expressar o sentido, o sentimento, a emoção inspirada pelo objeto percebido. Assim, é imprescindível, sensibilidade que permita captar o belo no mais inusitado, a exemplo da poesia para a Poesia a seguir: Poesia Eu te capto entre os espigões de concreto que se afogam no mar morto do asfalto eu te vejo mesmo na solidão do eco do salto alto nervoso apressado... eu te acho no poço escuro sombrio do elevador lento e inabalável ... eu só me calo quando me falas eu sempre grito as tuas dores mas também digo os teus prazeres e ainda bendigo por me fazeres teu instrumento!... (ADLER, 1997, p.19) Ou nesta outra: POEMA No frio e pálido papel eu me debruço debulho irrefutavelmente tantos prantos quanto me custa! degusto prazerosamente todos os sabores que me devassam e afloram corpo e mente quantos licores! e o papel se enche transborda vida! (ADLER, 1997, p.13) Por outro lado, convém enfatizar que todos têm sensibilidade. O que acontece é que alguns reprimem a sua, por variados motivos, ou ainda, a sociedade não cria as condições facilitadoras para o seu desenvolvimento e expressão. É urgente que se busquem estratégias de desenvolvimento (para quem já deixa emergir em si) da sensibilidade e de resgate, para posterior desenvolvimento, para aqueles que perderam essa condição em si, já que essa é inerente ao ser humano. Ler e produzir obras literárias devem se firmar como prazeres vitais para o mundo humano. O mundo humano necessita, para a sua continuidade e felicidade dos seus habitantes, da criação da ciência e das artes, em todas as suas vertentes, mas necessariamente, devem ser obras permeadas por uma ética humanizada que resulte da convivência amorosa entre as pessoas. REFERÊNCIAS ADLER, Dilercy Aragão. Crônicas & Poemas Róseos - Gris. São Luis/MA: Graphos,1991. ________. Poematizando o Cotidiano ou Pegadas do Imaginário. Rio de Janeiro: Blocos, 1997. ______. GENESES: IV livro. São Luís/MA:Estação Produções, 2000 LYRA, Pedro. Literatura e Ideologia Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993. REZENDE, Antonio Muniz de. Bion e o futuro da psicanálise. Campinas/SP: Papirus, 1993. DUARTE, João Francisco Júnior. A política da loucura. Campinas / SP: Papirus, 1987.

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Martes, Junio 19, 2018

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